O que é música?
Que a música é uma arte, não se pode negar, porém, dar-lhe uma definição objetiva e universal já é outra coisa! Músicos, filósofos e estetas têm tentando ao longo de séculos dar tal definição, que sempre soam incompletas ou unilaterais:
Santo Agostinho (354-430): “A arte de bem movimentar os sons”. Trata apenas do aspecto técnico da música.
René Descartes (1596-1650), filósofo francês: “O fim da música é de nos deleitar e despertar em nós diversos sentimentos”. Proposição finalista que não abrange a essência da música.
Gottfried Wilhelm von Leibnitz (1646-1716), filósofo e matemático alemão “Um exercício inconsciente de aritmética de uma alma que não sabe como se enumerar”. Além de ser uma definição obscura, prende-se ao caráter matemático da música.
Jean-Jacques Rosseau (1712-1778), filósofo francês: “Arte de combinar os sons de uma maneira agradável aos ouvidos”. O que é agradável para uns, pode não ser para outros. Como sabemos, a música não trata só do que é agradável.
Jules Combarieu (1859-1916), musicólogo francês: “A Arte de pensar com os sons”. É uma definição intelectual e, talvez, ambiciosa.
Samuel Johnson (1709-1984), escritor inglês: “De todos os ruídos, eu penso que a música é o menos desagradável”. Ele coloca a música na situação de um evento “menos pior” que outros...
Evidentemente não estou aqui fazendo críticas a nenhum deles e nem à sua época ou ao seu pensamento sobre o conceito de música, mas quero mostrar como tais definições não conseguem conceituá-la de maneira completa. Vale lembrar que nenhum dos pensamentos citados são de pessoas da nossa época e, portanto, é comum que conceitos e idéias que fazem (ou fizeram) sentido em uma determinada época, possam se tornar extremamente desconectados e sem sentido em outra época.
Então, o que é música? Um pássaro cantando ou o som das ondas do mar quebrando-se na praia, ou ainda, trabalhadores da construção civil martelando, serrando e utilizando máquinas, como numa verdadeira “sinfonia desordenada de ruídos”: isso tudo é música?
Há uma questão importante a ser observada: a intenção de se estar fazendo música, o desejo e a ação de se estar criando sons. Podemos também refletir acerca da intenção de se ouvir algo como música. Posso entrar num bosque e ter a intenção de ouvir o som das folhas ao vento como música. Então, a intenção de se fazer e de se ouvir os sons torna-se importante para sabermos se “um amontoado de sons” é mesmo música ou não. Portanto, a definição de “música” é tão subjetiva quanto ela própria.
No mundo atual, com uma poluição sonora absurda, muitas vezes não nos damos conta dos sons que estão ao nosso redor. O músico e educador canadense Murray Schafer tem alertado para esse problema: precisamos parar e ouvir a “paisagem sonora” que nos cerca. Vivemos num mundo cheio de sons, onde o silêncio absoluto, como diria o músico norte-americano John Cage (1912-1992), só existe com a morte. Faça a seguinte experiência em qualquer hora do dia (ou da noite): pare por um instante e ouça os sons ao seu redor; sons fortes, fracos, distantes, repetitivos, ocasionais, que lhe agradam ou que incomodem, sons de máquinas, etc. Observe como existe todo um “universo sonoro”, uma paisagem sonora que passa despercebida. Tire a sua própria impressão e/ou conclusão desta experiência.
Friedrich Nietzche (1844-1900), filósofo e poeta alemão:“Sem música a vida seria um erro”. Com toda a certeza ele tinha razão...
A cadeia musical que alimenta os povos (e que às vezes os sufoca...)
Observe essas coincidências:
- Na Idade Média o Canto Gregoriano europeu usou escalas similares às escalas gregas;
- Uma das escalas muito utilizada no Blues e no Rock também é usada na música tradicional chinesa;
- O modo de cantar dos árabes assemelha-se, em alguns aspectos, aos repentes nordestinos brasileiros;
- A música árabe assemelha-se, em muitos aspectos, à música flamenca espanhola;
- Certos rítmos brasileiros tem grande similaridade em relação às percussões africanas;
- Algumas danças gaúchas e o Fandango do Paraná, usam sapateado, assim como na música espanhola;
- O Chorinho brasileiro tem moldes de música clássica (européia) .
- Alguns modos rítmicos medievais (percussões medievais) assemelham-se a ritmos usados no rock, no heavy metal e na música eletrônica.
Evidentemente, isso tudo não é mera coincidência! As guerras, invasões e miscigenações culturais servem também para a imposição, fusão e troca de informações.
Vejamos o porquê de algumas similaridades da música árabe com a espanhola e a nordestina: os mouros (árabes), invadiram a Espanha e por lá ficaram do ano de 711 até 1492, quando foram expulsos do Reino de Granada, na região da Andaluzia, sul da Espanha, após quase 800 anos de domínio. Após tanto tempo de contato com a cultura dos mouros, a música espanhola (do sul), adquiriu sotaques oriundos da música árabe e os assimilou e incorporou, criando um modo próprio de expressão musical. É nessa mesma época que Portugal e Espanha assinam o Tratado de Tordesilhas (1493), dividindo as novas terras (as Américas) entre eles. Portanto, os espanhóis estiveram no Brasil e deixaram vestígios de sua música também, que foram incorporados e (re)codificados.
Outro exemplo: a similaridade de alguns ritmos brasileiros e africanos se deu por conta dos escravos trazidos ao Brasil. O caráter dançante e ao mesmo tempo ritualístico das percussões africanas foi trazido como parte da cultura negra que se enraizou no Brasil. O mesmo aconteceu com os africanos levados para a América do Norte. Para irmos além da música, basta vermos a influência africana em outros aspectos culturais brasileiros: a feijoada, por exemplo, era feita com restos de porco que eram rejeitados pelos senhores das fazendas; a capoeira foi permitida aos escravos, pois estes diziam que não se tratava de uma luta, mas sim de uma dança; o culto aos orixás e outras divindades também é de origem africana. Estes são só alguns exemplos de como uma cultura interfere e interage em outra.
A influência da música européia também é forte, por exemplo, no Chorinho, e foi trazida pelos europeus que aqui estiveram. Observe como o Chorinho tem a “cara” da música européia, mas com uma certa “malandragem” típica do carioca.
Analisemos o rock norte-americano e o britânico em comparação com o rock nacional. No final da década de 70 e na década de 80 o rock brasileiro foi buscando sua própria identidade, pois os alicerces principais deste gênero já eram fortes por aqui, mas não se tinha ainda um “rock brasileiro”, com características próprias. Grupos como os Mutantes, Barão Vermelho, Lobão, Legião Urbana, Ira!, Plebe Rude, Os Inocentes, e até mesmo o punk dos Cóleras, foram trazendo a brasilidade e o contexto das letras já direcionava para um comportamento e atitude voltados para nosso país. Já há algum tempo começamos a ver a saudável mistura do rock com ritmos brasileiros, como por exemplo, em Chico Science e Nação Zumbi, Os Raimundos, Zeca Baleiro e tantos outros.
Não podem haver fronteiras entre as culturas e nem radicalismos que levem a um enclausuramento cultural e a uma visão estreita das possibilidades e tendências artísticas e estéticas. Vamos falar um pouco sobre a televisão e sobre o papel cultural que ela não vem cumprindo. A mesmice musical que está impregnada nas televisões abertas nos leva a um marasmo e bitolação tamanhos que é possível sair cantando na rua a música da “eguinha pocotó” (ou algo pior) e ainda achar que isso é legal. Vocês já devem ter observado que nos programas de televisão são sempre os mesmo artistas cantando, basicamente, os mesmos estilos e as mesmas coisas. Observe que na Rede Globo os artistas que aparecem são, quase na totalidade, contratados da Som Livre, que é da Globo. O que se ouve nas televisões? Pagode, Samba, Sertanejo, música brega e/ou romântica e música internacional-pop-americana. O que mais? Praticamente mais nada, salvo algumas raras e ótimas exceções, quero dizer, salvo alguns programas veiculados pela TV Cultura, que muitas vezes salvam a programação para quem está na frente da TV brigando com seu controle remoto e querendo ouvir alguma música que possa realmente lhe acrescentar algo. E as FM´s? Não são muito diferentes, novamente salvo algumas exceções, como a Rádio UEL por exemplo. Geralmente as grandes gravadoras mandam nas rádios. Sim, aquelas mesmas gravadoras que pagam menos de R$ 3,00 prá fazerem um cd e os vendem para nós por mais de R$ 20,00!!! O lucro delas é exorbitante! E ainda falam contra a pirataria! Atualmente a pirataria é uma questão de sobrevivência, pois se estivermos sujeitos sempre aos preços absurdos dos cd´s impostos pelas gravadoras, não conseguiremos ter acesso a muita coisa. É aí que entra a pirataria: quero ter o cd do artista X mas não tenho R$ 25,00 prá comprá-lo. O que faço? Vou em qualquer loja, compro um cd virgem por R$ 3,00 e faço uma cópia do cd original. Querem acabar com a pirataria, ou pelo menos diminuí-la? É fácil, abaixem os preços dos cd´s...
Salvo algumas ótimas exceções uma coisa é certa: não dá prá ficar parado na frente da TV ou do rádio sendo hipnotizado e “bobotizado” com as mesmices e falta de criatividade. É preciso atitude. Atitude de sair da frente da TV ou girar o dial do rádio e procurar algo melhor para ver e ouvir. Música é cultura e é arte. Pense nisso. Há milhares de tipos/gêneros de músicas de diversas épocas e cantos do mundo, portanto, vá atrás de algo que possa lhe acrescentar alguma informação. Gostou de algum artista novo? Vá à intenet e procure a sua página ou algo sobre ele. É muito freqüente artistas independentes venderem seus cd´s em suas páginas. A internet é um manancial de informações e arquivos, portanto faça uso disso!!! Não fique parado vendo “A Banda” passar, acredite nos “flying saucers in the sky”, não “Cálice” e lembre-se do Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora e não espera acontecer...”
A trilogia
O espetáculo Fome, do Ballet de Londrina, é a última parte de uma trilogia iniciada com Nunca em 2001, e Eternamente em 2002. Atuo tocando guitarra em Fome e criei a maior parte das músicas. As trilhas sonoras destes 03 espetáculos de dança contemporânea fazem parte dos cd´s Nunca, Eternamente e Cadeia Alimentar (que contém 04 músicas do espetáculo Fome).
1- Nunca: a negação e a idéia de que nunca mais seremos os mesmos, ou nunca mais faremos as mesmas coisas. Nunca mais vamos querer as coisas da mesma maneira. Podemos buscar outras possibilidades, enxergando novos horizontes.
2- Eternamente: constata-se que a negação cai por terra quando vemos que eternamente as coisas voltam a acontecer, tal qual um ciclo (ou círculo) vicioso onde as histórias se repetem. A esperança e a crença na mudança dão lugar à constatação de que o ser humano é eternamente o mesmo, eternamente preso em si mesmo. Apesar disso, um pequeno fio de esperança ainda resta...
Trilha sonora: a 1ª idéia surgiu com a performance Movimento, baseada na Action Painting de Jackson Pollock. Idealizada pela artista plástica Regina Mello, apresentada pelo Ballet de Londrina e com trilha sonora de minha autoria, Movimento mostra um artista em crise com sua arte; que não deseja apenas pintar, mas quer fazer parte da pintura, tornando-se a própria.
Movimento deu origem ao espetáculo e ao cd Eternamente, onde o ser humano constata que vive num eterno ciclo de acontecimentos, situações e contextos, convivendo com suas lembranças e misturando-as às lembranças de outros. A trilha sonora de Eternamente traz um tema musical que remete a um dos personagens: o único que acredita que as coisas possam mudar. Mas afinal, se tudo acontece ciclicamente, aparentando não ter mudanças significativas, então, temos fome de quê? O que nos alimenta? Quais são as nossas necessidades?
3- Fome: mas então, o que nos alimenta? O que nos abastece em nosso dia-a-dia, em nossas vidas? Quais são nossos desejos e vontades? Temos fome de quê? O personagem final de Eternamente renasce (ciclo da vida), descobre e experimenta diversos tipos de fome e vê que ele, e tudo o mais, faz parte de uma grande Cadeia Alimentar, onde as coisas são cíclicas, mas não estanques. O ser humano tem fome de mudar as coisas, tem fome de ter esperança, tem fome de um mundo melhor, um mundo onde ele possa participar ativamente e ajudar a (re)construir. Cada acontecimento e contexto têm suas semelhanças, mas nada acontece duas vezes exatamente do mesmo modo. Musicalmente, no cd, o tema de Eternamente reaparece em duas situações diferentes, repetindo-se, porém, não da mesma maneira. O mesmo acontece com o tema da música Povos e Nações, apresentada por mim, em outubro, a convite da Coimbra 2003 – Capital Nacional da Cultura, no Congresso Internacional de Literaturas Africanas, realizado na cidade de Coimbra/Portugal.
Cadeia Alimentar traz a idéia de que tudo é interligado, numa relação interdependente (causa/efeito/ação/reação). Não é mais cíclico como em Eternamente, mas segue uma linha em espiral, sempre querendo conduzir a um ponto diferente No cd algumas músicas induzem a certas paisagens sonoro/culturais, como: Brasil, África, Espanha, Tibet e Oriente Médio, mostrando que a necessidade que o ser humano tem em saciar suas fomes existe em qualquer canto do mundo. As percussões tiveram a intenção de dar um toque mais primitivo, mais tribal, inato ao ser humano.
Mais informações: www.conexaodanca.art.br
Para entender um pouco mais sobre música
Existem centenas de termos técnicos e gírias em música que, evidentemente, a grande maioria das pessoas desconhece. Preparei uma pequena lista que pode ajudar a compreender melhor alguns elementos relacionados à música:
Quadrada = música que é feita em compasso de “4 por 4”, ou seja, se você ficar contando (no ritmo) 1, 2, 3, 4, verá que a música inteira é dividida em “pequenos pedacinhos de 4 partes cada um”. Costuma-se dizer, na gíria, que a música é quadrada quando ela é muito previsível.
Atravessar = é quando alguém está tocando ou cantando uma música e sai do ritmo: canta (ou toca) no lugar errado, ou mais rápido ou mais devagar do que é a música; aí se costuma dizer que a pessoa “atravessou a música”.
Balanço/Swing = é o ritmo da música; por exemplo: um Samba ou um Pagode tem muito mais balanço e swing do que as músicas novas do Roberto Carlos (que são muito paradas...). Estilos/gêneros musicais como Samba, Pagode, Funk, Soul, Jazz, Frevo, Baião, costumam ter muito mais swing e balanço do que outros. Músicas que servem para dançar tem balanço e swing, por isso são boas para dançar.
Bate-estaca = são as levadas de música eletrônica. Se usa a gíria “bate-estaca” porque os ritmos são repetitivos, circulares e fortes, como um bate-estaca, que faz sempre a mesma coisa. Evidentemente é uma gíria pejorativa...
Pegada = tem relação com o estilo do artista. Alguns exemplos: Egberto Gismonti tem uma pegada Jazz em sua música. A maneira de se tocar música sertaneja é diferente do rock, ou seja, a pegada é diferente. O Rouge não tem uma pegada rock, já a Alanis Morisette tem.
Levada = a “levada” do Metallica é muito mais agressiva do que a “levada” do Detonautas. As “levadas” das músicas da Kelly Key são mais eletrônicas do que as “levadas” das músicas do Barão Vermelho. As músicas do Ratos de Porão tem uma levada muito mais rápida em relação às músicas do Jorge Vercilo.
Estilo/Gênero = esses dois termos se confundem, podemos então relacionar alguns estilos/gêneros musicais: Blues, Rock, Jazz, Country, Funk, Punk, Música Regional, Reggae, Samba, Pagode, Música Eletrônica, Música Latina, etc...
MPB = a sigla significa Música Popular Brasileira, mas até hoje o termo MPB é uma grande incógnita, pois, o que pode ser considerado como MPB? Caetano, Gil, Chico Buarque, Sepultura, Barão Vermelho, Ratos de Porão, Garotos Podres, Angra, Zélia Duncam, Kelly Key, Rouge, etc. Todos esses artistas e grupos citados fazem música, cada um à sua maneira; a música deles é popular já que cada um tem o seu público em camadas ricas e pobres da sociedade; a música é brasileira pois são criadas e tocadas/cantadas por artistas brasileiros.
Música Clássica = o termo correto seria “Música Erudita”, pois a música Clássica deveria se referir apenas ao período clássico (o Classicismo). Mas, popularmente, chama-se de música Clássica aquela música orquestral criada, via de regra, desde o Renascimento (séculos XIII/XIV) até o século XX.
Forma = é a organização das partes (seções) de uma música. Toda música tem uma forma. Exemplos: a forma de um caderno é retangular, isso é fácil de perceber, pois é só olhar para um caderno. Não dá pra observar a forma da música da mesma maneira, já que não podemos vê-la e nem pegá-la. Então, imagine uma música assim: Introdução, Estrofe, Refrão, Estrofe, Refrão, Estrofe, Refrão, Refrão e Final – isso seria a forma dessa música. Vejamos a mesma coisa de outro modo:
Introdução - Estrofe - Refrão - Estrofe – Refrão – Estrofe – Refrão – Refrão – Final
A B C B C B C C D
A forma dessa música é então: A B C B C B C C D
Música brega = esse termo tem uma conotação pejorativa, visto que costumam ser chamadas de brega, as músicas que as pessoas julgam serem “pobres, do povão e que não tem muita coisa a dizer”, resumindo, “de mau gosto”. O termo foi absorvido pela mídia e pelos artistas que se consideram bregas, como Wando, Reginaldo Rossi, Falcão, Amado Batista, ... Hoje em dia o termo “Música Brega” é um estilo de se fazer música.
Cover = é quando alguma banda ou artista toca, fielmente, uma música de outro artista. O Cover é como uma “fotocópia/xerox” da música original e muitas vezes o cantor/vocalista procura até imitar a voz ou o estilo de cantar da música original. A maioria das bandas que tocam em festas e as bandas de baile fazem Covers.
Releitura = como a própria palavra sugere, releitura é quando fazemos a nossa própria versão de alguma música que já existe, exemplo: uma banda pode fazer a releitura de um Baião (Asa Branca, de Luiz Gonzaga) tocando-o na versão Reggae, ou seja, nesse caso a banda tocará Asa Branca (que é Baião) numa versão Reggae, re-criada pela própria banda.
Versão = o termo é geralmente usado quando se pega uma música internacional para cantá-la (no nosso caso) em português, por exemplo: a cantora Simone cantou em português a música “Knockin´on the Heaven´s Door” de Bob Dylan, ou seja, ela fez uma versão em português desta música.
Cantor/vocalista = é comum usar o termo “vocalista” para cantores de bandas e “cantores” para artistas solos. Não é uma regra, mas é de uso popular. Exemplos – cantores: Sandy, Caetano, Chico Buarque, Zélia Duncam, Zezé di Camargo, ... Vocalistas: os cantores de bandas, como Metallica, Detonautas, Hanson, Só Prá Contrariar, Iron Maiden, ...
Cozinha = diz-se da junção entre o contrabaixo e a bateria em uma banda. Se o baixo e a bateria estão (são) firmes em uma música, diz-se que a “cozinha” é boa. Todo grupo musical, independente do estilo, tem que ter uma “cozinha” legal! Se todo time começa com um bom goleiro, toda banda começa com uma boa cozinha...
Baixo/grave = é o som “grosso”, o som mais pesado. Alguns instrumentos desempenham tradicionalmente esse papel: contrabaixo, tuba, contra-fagote, saxofone barítono, bumbo da bateria, surdo da escola de samba, a mão esquerda do piano, do teclado e do órgão...
Alto/agudo = é o som mais “fino”. Alguns instrumentos com essas características: violino, cavaquinho, flauta doce soprano, flautim, bandolim, ...
Altura = é a relação entre sons graves e sons agudos. Os termos “baixo/grave e alto/agudo” não se referem somente a instrumentos musicais: o som de um trovão é mais grave que o som de uma freada de carro; ou, o som de um copo caindo no chão será mais agudo que o som de um vaso caindo. Outro exemplo: se você está de frente a um equalizador de um aparelho de som, terá à sua esquerda os sons graves e à sua direita os sons agudos, no meio terá os sons médios. Então se você quer deixar a música mais pesada (como a música eletrônica da boate), deverá acentuar as freqüências graves do equalizador, que estão na parte esquerda dele. Fazendo isso a música ficará mais pesada, mais forte. Mas por outro lado, você ouvirá um pouco menos os sons médios e agudos da música. Faça uma experiência: coloque alguma música no seu aparelho de som e, se o aparelho tiver equalizador, coloque todos os botões no mínimo e vá mexendo com eles, às vezes um a um, às vezes aos pares; mexa com o botão mais à direita e com o mais à esquerda do equalizador, enfim, brinque com o seu equalizador, assim você terá uma noção prática do que é o grave, o médio e o agudo. Se o seu aparelho de som não tiver equalizador, procure na internet algum software que tenha equalizador e faça a experiência no seu computador.
O filme e a música
Você já prestou atenção nas trilhas sonoras (músicas incidentais / músicas de fundo) de filmes? Tente imaginar como seria o filme sem a música.Talvez seja difícil para o espectador conceber a imagem sem o som, pois os dois são entrelaçados e colocados de maneira a aumentar a emoção das cenas, sejam elas de ação, tristeza, paixão, drama, violência, etc.
Na arte de uma maneira geral, as diversas áreas se complementam e o cinema, por exemplo, tem a possibilidade de utilizar-se de todas as outras áreas para a sua realização. Vejamos algumas: texto (roteiro, argumento, adaptação, transcriação, tradução, ...), técnicas de filmagem, cênica (teatro, interpretação), música, fotografia, figurino, cenário, maquiagem, iluminação, artes gráficas, efeitos visuais. Dependendo do contexto (assunto) do filme poderão ser utilizados ainda elementos referentes a qualquer outra área do conhecimento humano, como história, física, filosofia, química, biologia, botânica, zootecnia, medicina, direito, arquitetura e uma infinidade de outras. Como o cinema muitas vezes busca uma interpretação da realidade, faz-se necessário que tal realidade seja criada. Um exemplo: “Jurassik Park – O Parque dos Dinossauros”, de Steven Spielberg. Foram necessárias pesquisas com especialistas em animais pré-históricos e profissionais ligados à computação gráfica para a criação deste universo jurássico. A equipe envolvida na produção de um filme é, geralmente, muito numerosa.
Mas, o que é uma “trilha sonora original” (original soundtrack)? É quando o compositor cria uma obra musical especialmente para um filme, uma peça de teatro, um espetáculo de dança, um desenho/cartoon, etc. Além da trilha, um filme também tem som direto, diálogos e sonoplastia. Vamos lá:
Trilha: no filme “Velocidade Máxima 2”, com Sandra Bullock, Carlinhos Brown canta sua música “A Namorada” numa festa no navio. Esta música não faz parte da trilha sonora original do filme, mas entra como parte da trilha “não original” do filme.
Som direto: é o som captado diretamente no set de filmagem. É captado com microfone especial, chamado de “boom”, é o mesmo microfone que se usa nos programas de auditório (Jô Soares, Faustão, Sílvio Santos, ...), nas novelas e em algumas entrevistas. O “boom” geralmente não aparece em cena, ficando acima do enquadramento da câmera. É com esse microfone que são captados os sons do ambiente da cena, incuindo os diálogos dos personagens e sons/ruídos do local.
Diálogos: são captados através do som direto, mas pode-se também inserir algum texto em estúdio, após a gravação da cena.
Sonoplastia: é o som do ambiente e ruídos extras que o diretor queira inserir nas cenas, como o som de um trovão, de um telefone tocando, de uma porta batendo, de pessoas conversando, etc. A sonoplastia pode ser captada pelo som direto ou ser adicionada em estúdio.
Na maioria dos filmes, é comum observarmos trilhas sonoras orquestradas, pois uma orquestra oferece uma grande variedade de instrumentos que vão desde sons muito graves até muito agudos, ou seja, um grande leque de opções para a composição. Grandes compositores de trilhas sonoras para cinema compuseram para orquestra, como John Williams (“Guerra nas Estrelas”, “ET”, “Tubarão”, “Contatos Imediatos do 3º Grau”, “Os Caçadores da Arca Perdida”, “O Parque dos Dinossauros”, ...) e Henry Mancini (“A Pantera Cor de Rosa”, “James Bond”, “Peter Gunn”, “As Panteras”, ...).
Uma trilha sonora procura traduzir musicalmente as idéias centrais e/ou cenas do filme e é comum que se tenha, por exemplo, o tema de amor (quando a película falar sobre amor, evidentemente); também são comuns os leitmotif: criado pelo compositor alemão Richard Wagner (1813-1883), o leitmotif é uma idéia musical breve, como uma linha melódica, que é usada pelo compositor através de uma repetição freqüente para simbolizar um personagem (exemplo: tema da Pantera Cor de Rosa), uma característica (ex: o poder do imperador), um sentimento (ex: um amor não correspondido, ou o herói que retorna), um pensamento (ex: recordações de infância), um objeto (ex: uma espada, uma fotografia, um talismã), uma situação específica (ex: um sonho, uma divagação). Os leitmotif dão ao ouvinte/espectador vários pontos de referência em relação à história, por exemplo, toda vez que uma determinada melodia (leitmotif) aparece no filme, indica que o personagem entrará em cena.
Quando assistir a um filme, novela, desenho animado, espetáculo de teatro ou dança, preste atenção na trilha sonora e veja como ela reforça e complementa a cena. Para finalizar, seguem comentários sobre alguns filmes:
“Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick. Observe as cenas de violência gratuita oferecidas pela gang quando esta invade o apartamento de um casal e, por puro prazer, iniciam uma seção de espancamento ao som de “Singing in the Rain”, música imortalizada por Gene Kelly. A princípio essa música colocada numa cena de violência não tem nada a ver, mas a música fala da alegria de viver e de se estar, prazeirosamente, cantando na chuva, feliz, contente. Para a gang do filme “Laranja Mecânica” a alegria, o prazer e a felicidade estão na violência, em espancar gratuitamente qualquer um. Por isso associou-se a cena de violência com “Singing in the Rain”. A questão não está propriamente no som da música com a imagem da cena, mas sim no significado da música aplicado à cena.
Em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, também de Stanley Kubrick, a música-tema, que é de Richard Strauss e é intitulada “Assim Falou Zaratustra”, dá um clima perfeito às cenas, embora não tenha sido composta para o filme. Tem-se a impressão que o som e a imagem foram feitos para serem usados em conjunto. No decorrer do filme outras músicas de Strauss, suas valsas, tocam e dão um “ar” de leveza e de solidão, provavelmente muito mais próximo da realidade do “mundo espacial” de um astronauta.
Um filme mais recente, “K-19 – The Widow Maker”, a música deixa o filme mais tenso, com os diálogos e as situações tornando-se mais emotivas e à flor da pele. O tom meio escuro (da imagem) do filme traz um “clima” de solidão, medo e isolamento de uma tripulação confinada a um submarino nuclear à deriva.
Em “Guerra nas Estrelas” (Star Wars), de George Lucas, a música de John Williams é simplesmente fantástica e conduz o espectador a lugares do imaginário. A música mostra desde a imponência da “Estrela da Morte” e do Império, passando pelo amor de Luke e Leia, até o “lado negro da força”, bem mostrado na figura do Lord Darth Vader.
